“Santíssima Trindade”
Um domingo após a solenidade de Pentecostes, a Igreja celebra em sua liturgia a solenidade da Santíssima Trindade.
A doutrina da SSmma:
Trindade na ação pastoral da Igreja (pregação e catequese) e talvez na reflexão teológica não tem recebido o destaque que lhe é devido. Karl Rahner entre o humor e a dor afirma que se, por uma hipótese, impossível para a fé, for declarado que a SSma. Trindade não existe e que o verdadeiro Deus é uno e único, pouco se teria para modificar em nossos catecismos. Yves Congar, outro teólogo de renome se pergunta: “O dogma da Trindade, em cuja confissão fomos batizados, tem algum impacto em nossa vida?”.
Leonardo Boff, que conhece a afirmação de Karl Rahner e a pergunta de Yves Congar, tenta dar uma explicação sociológica para o fato. Segundo ele, os regimes políticos autoritários e concentradores de poder nas mãos de poucos ou de uma só pessoa precisam de sustentação ideológica. Fomos por isso levados a ouvir e crer que há um só Deus, um só rei, e uma só lei. Leonardo Boff não está inventando isso da própria cabeça, mas fundamenta-se em um bispo que viveu no século IV, Eusébio de Cesárea que em uma de suas obras escreve: “Na terra há um rei e este corresponde a um Deus, o único rei do céu”. Outra explicação possível, segundo Leonardo Boff é a desintegração de povos inteiros, como acontece em regiões de pobreza. Esta situação provoca a compreensão desintegrada do dogma trinitário. Felix Pastor, professor na célebre Universidade Gregoriana de Roma, concorda com Boff quando afirma: “Trata-se da prática em que uns vivem a ‘religião do Pai’, outros a ‘religião do Filho’ e outros ainda a ‘religião do Espírito Santo”.
Estas afirmações não são apenas elucubrações de teólogos. Nós podemos constatá-las na prática, através dos grupos diversos existentes na Igreja.
Para alguns, o relacionamento com Deus se centra na figura de Deus Pai. A própria Trindade se transforma no “Divino Pai Eterno”, como acontece no santuário de Goiás. Para outros a imagem de Deus gira em torno de Jesus. Sua fé e espiritualidade são orientadas pelas devoções à eucaristia, às mãos ensangüentadas de Jesus, ou ao Cristo taumaturgo, capaz de realizar qualquer tipo de milagre e de resolver todos os problemas de saúde, familiares, afetivos e econômicos. Por fim existe um grupo, cuja religião se forma em torno do Espírito Santo. Fazem parte de grupos, onde cada qual manifesta sua experiência pessoal, sem maiores compromissos comunitários.
Semelhantes formas de conceber e viver a fé cristã pouco contribuem para uma verdadeira prática cristã que deve ser essencialmente trinitária e conseqüentemente comunitária. Neste sentido a doutrina sobre a Santíssima Trindade “não apenas serve de instância crítica, mas principalmente de forte inspiração. Como na Trindade não existe dominação, mas convergência e comunhão, acolhida e recíproca auto-doação, da mesma forma na comunidade dos cristãos, composta de homens e mulheres feitos à imagem e semelhança da mesma Trindade, não podem existir divisões de classes, nem dominação de uns sobre o outros. Todos deverão sentir-se integrados, participantes, iguais e respeitados em suas diferenças”.
Jürgen Moltmann formula esta concepção comunitária da Trindade de forma muito clara, como se pode ver no seguinte texto: “Respeita o Deus trinitário somente uma comunidade cristã una, única e unificante, sem domínio de classe e sem opressão ditatorial. Este é o mundo do qual os seres humanos se caracterizam por sua relação social e não por seu poder ou por aquilo que possuem. Este é o mundo no qual os seres humanos têm tudo em comum e tudo condividem, exceção feita de suas características pessoais”.
Dom Manoel João Francisco
Bispo da Diocese de Cornélio Procópio