Prefeitura de S. Jerônimo da Serra teria criando um “mensalinho” para desvio de verba, afirma MP
A novela "O Bem-Amado", mostrava com humor as falcatruas do prefeito Odorico Paraguaçú na cidade de Sucupira. Não por acaso, "Operação Sucupira" foi o nome dado a uma investigação do Ministério Público que prendeu o prefeito e 17 pessoas em São Jerônimo da Serra (72 Km de Cornélio Procópio). Entres os presos também estão alguns vereadores da cidade.
Na novela "O Bem-Amado", o prefeito corrupto de Sucupira é capaz de qualquer coisa para conseguir o que quer. A novela era muito divertida. Já o desvio de dinheiro público em São Jerônimo da Serra é que não tem nada de engraçado. A cidade está toda pichada, um ato de vandalismo que mostra a revolta da população contra o prefeito Adir Leite.
“Ele não podia viver com o salário dele? Ele tinha que pegar o dinheiro do povo?”, questiona uma mulher. A pensionista Ana Maria Camargo Rodrigues.
São Jerônimo da Serra, o MP apurou um depósito de carros velhos, que não têm mais condições de rodar, mas mesmo assim, um caminhão que está no local é o campeão de abastecimento no posto de gasolina da cidade. Na realidade, o caminhão nunca rodou.
Entre as falcatruas cometidas em São Jerônimo da Serra, está o uso de um carro-fantasma. Uma sucata, mas, para todos os efeitos, era abastecida regularmente e quem pagava o combustível era o contribuinte. Uma Kombi que nem motor tem também era abastecida no posto.
Enquanto isso, a população do bairro Terra Nova sofre com a dificuldade para ser atendida na rede pública de saúde e também com a falta de um transporte decente.
Os pacientes que vivem no bairro não têm escolha. “Vou fazer endoscopia lá em Londrina, na clínica”, diz uma senhora. “Tem que acordar de madrugada e tem que esperar a condução e tem que ir com essa condução”, diz outra mulher.
O veículo referido é uma ambulância precária onde até um pneu fica em jogado em cima da maca. É a saúde de São Jerônimo da Serra que está doente.
Segundo as investigações do Gaeco, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado pelo Ministério Público, o então prefeito Adir Leite empregou a esposa, Silvana, o filho Adicarlos e a noiva do filho, Aline. Essas e outras nomeações formaram a base da quadrilha que passou a mão no dinheiro público.
Uma das formas de desvio de dinheiro público era um "mensalinho" pago pela prefeitura a um grupo de vereadores. Todo mês, eles podiam pegar até R$ 1.000 em combustível nos postos integrantes do esquema para uso particular. Não era para abastecer carro oficial da Câmara.
“Portanto, era dinheiro público, que foi empregado em proveito de particulares, os próprios vereadores, para os interesses deles mesmos”, afirma o promotor Cláudio Esteves, coordenador do Gaeco, Londrina - PR.
Para esconder o esquema, as placas dos carros da prefeitura que estão sucateados é que apareciam na despesa, como se fosse à frota da prefeitura sendo abastecida. Quem autorizava os abastecimentos era Aline Moreira, a noiva de Adicarlos, filho do prefeito.
Em um telefonema gravado com autorização da Justiça, Aline conta ao noivo que está usando essas placas todos os dias: “Todo dia, no final do dia, eu pego umas placas”, ela diz.
Em outro telefonema, o vereador Amarildo Bueno pede pneus ao prefeito Adir Leite.
“O fornecimento de baterias, peças, troca de pneus. Estes gastos com combustíveis e outros insumos eram colocados na conta do município, embora se destinassem a veículos ou a interesses de particulares ligados aos integrantes da administração”, explica o promotor.
Um dos postos de gasolina do esquema pertence a Fernando Larine. Em depoimento ao Ministério Público, Fernando contou como paga propina ao prefeito. Ele oferece 50% de tudo o que tem a receber da prefeitura.
Fernando Larine tinha R$ 90 mil para receber e ofereceu R$ 45 mil de propina. Segundo as investigações, o esquema funcionou durante pelo menos quatro meses. Teve de tudo: nota fria, licitação fraudada, produtos superfaturados. Dezesseis empresas envolvidas. Vários empresários se dando bem.
Como Odirlei Nigra, dono de um posto de gasolina e de um supermercado. O valor de todos os contratos que ele tinha com a prefeitura era de quase R$ 2 milhões.
Uma parte desse dinheiro servia para pagar propina ao prefeito, seus parentes e protegidos.
Mais um empresário: Sergio Loreto. Ele é fornecedor de merenda escolar. Com contratos, no ano passado e neste ano, no valor de pelos menos R$ 329 mil.
A empresa funciona em um quartinho nos fundos de uma casa. No local estão estocados biscoitos, açúcar, sopa, tudo no chão, mal armazenado. Com esse desprezo pelos recursos públicos, quem sofre, claro, são os mais fracos, justamente os alunos da escola que recebe a merenda.
Depois das investigações da Operação Sucupira, o prefeito Adir Leite e três vereadores foram afastados do cargo. O esquema continua sendo investigado. (Redação G1 / Imagens: Reprodução Fantástico - Rede Globo)