Ortopedista do HR de Santo Antônio da Platina se recusa atender criança com duas fraturas
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Redação Anuncifácil
Uma menina de seis anos, vítima de atropelamento no sábado, 26, em Santo Antônio da Platina, com duas fraturas – uma no ombro e outra no cotovelo – não conseguiu ser atendida pelo ortopedista de plantão do Hospital Regional do Norte Pioneiro, José Roberto Vivan. Em vez disso, o profissional agendou consulta para a próxima quarta-feira, 6, e alegou que o HR não atende emergências, e que é preciso obedecer um agendamento prévio. O ortopedista também disse que os médicos da unidade hospitalar estão com salários atrasados há dois meses e que, por conta disso, só atendem três pacientes por dia, numa espécie de “operação tartaruga”.
A recusa causou indignação no pai da menina, o trabalhador rural Misael Tomaz da Silva, morador no bairro Aparecidinho 2. “Isso é omissão de socorro”, disse, ao revelar que a filha estava com dores e que não conseguia dormir à noite. Misael pediu a ajuda dos conselheiros tutelares de plantão Rosemara Alcântara Bertolini e Everton Roberto de Souza, que tentaram em vão convencer o médico a consultar a criança. “O médico disse na minha cara que não ia fazer favor nenhum ao hospital porque estava com o pagamento do salário atrasado”, contou a conselheira.
Os conselheiros também entraram em contato com a promotora de Justiça Maricleia Bório da Silva, que acionou a secretária de Saúde interina, Rosemar do Espírito Santo, que por sua vez, contatou o diretor geral do HR, Eliezer de Freitas Ribeiro, que através do Consórcio Intermunicipal de Saúde do Norte Pioneiro (Cisnorpi) responsável pela gestão do hospital, conseguiu uma consulta com médico particular para a criança em Jacarezinho. A consulta foi paga pelo Consórcio. Os conselheiros acompanharam o atendimento. “O ortopedista de Jacarezinho confirmou as duas fraturas”, disse Rose.
Entenda o caso
No final da tarde de sábado, a menina, uma dos seis filhos do trabalhador Mizael da Silva, foi atropelada. O pai a levou para o Pronto Socorro Municipal, que fez os primeiros atendimentos, inclusive exame de raio-X, que detectou a fratura no ombro. Por se tratar de problema ortopédico, ela foi encaminhada ao Hospital Regional onde atuam três ortopedistas. “Precisei esperar o resultado do exame e o encaminhamento para o HR para trazê-la. Chegamos aqui e o médico vem descontar na minha filha os seus problemas financeiros. Não é justo. Ela é apenas uma criança”, reclamou.
A reportagem conversou com o médico José Roberto Vivan. O profissional disse que não atenderia por dois motivos: o primeiro seria que o hospital só atende consultas pré-agendadas. “Aqui não é Pronto Socorro. Não fazemos atendimento de urgência”, disse. Ele também acreditava que a menina estava medicada e imobilizada. “Ela já foi atendida no Pronto Socorro. Pode esperar até a semana que vem”, afirmou.
O outro motivo da recusa, segundo o médico, é que o hospital está em dívida com os profissionais e que todos do corpo clínico combinaram de atender apenas três pessoas por dia enquanto a situação não fosse regularizada. Por insistência da reportagem, o ortopedista aceitou examinar a criança, mas nesse momento, a paciente já estava a caminho de Jacarezinho.
Operação Tartaruga
O diretor geral do Hospital Regional do Norte Pioneiro, Eliezer de Freitas Ribeiro disse que a casa de saúde havia atrasado o pagamento referente aos salários do mês de maio, mas que o restante estava em dia. “Tivemos um problema administrativo em maio e realmente não foi realizado o pagamento dos salários dos médicos. Mas eu já havia me reunido com eles e explicado que colocaríamos tudo em dia amanhã (hoje). Os profissionais me garantiram que não reduziriam o atendimento. Eles garantiram isso, afinal, o HR atende 26 municípios da região. Não podemos tratar os pacientes dessa maneira”, lamentou.
Essa não é a primeira vez que os médicos do Hospital Regional usam dessa artimanha para forçar o pagamento dos salários. Os profissionais limitam o número de consultas por dia para não interromper totalmente o atendimento, porque a medida é ilegal. No ano passado, em outra crise financeira do hospital, os profissionais também optaram pela “operação tartaruga”, o que causou uma série de denúncias de pacientes e até mesmo de secretários de Saúde da região.
Médico será indiciado por omissão de socorro
A recusa de atendimento do ortopedista José Roberto Vivan à criança na manhã de ontem, 30, chegou ao delegado Tristão Antônio Borborema de Carvalho, titular da 38ª Delegacia Regional de Polícia Civil.
O policial registrou um Boletim de Ocorrência ao tomar conhecimento do fato e informou que vai abrir um inquérito criminal para investigar a atitude do médico, que será indiciado por omissão de socorro qualificado.
Tristão de Carvalho informou ainda que vai comunicar o Conselho Regional de Medicina (CRM) sobre o ocorrido e pedir o afastamento do ortopedista das suas funções até que as investigações sejam concluídas.
O Hospital Regional do Norte Pioneiro também será alvo de investigação. O delegado disse que o fato da unidade hospitalar não cumprir com suas obrigações trabalhistas acarretar em um processo por improbidade administrativa. (Redação e foto: Tá No Site)
