“Fraternidade: Igreja e Sociedade”

Há 51 anos, os católicos do Brasil, durante a Quaresma, refletem e tentam vivenciar as questões propostas pela Campanha da Fraternidade. Neste ano, com o tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e o lema “Eu vim para servir” (cf. Mc10,45), a Igreja pretende recordar aos católicos e às pessoas de boa vontade a importância do diálogo e da colaboração entre a Igreja e a Sociedade, tendo em vista o anúncio e a edificação do Reino de Deus.

Percebe-se que a intenção última deste objetivo é o anúncio e a edificação do Reino de Deus. Compreender o que isto significa é condição imprescindível para que a Campanha da fraternidade alcance os frutos almejados. Do contrário vamos continuar ouvindo da boca de católicos piedosos e fiéis que, “religião e política não se misturam”.

Para uma boa parte dos cristãos, o Reino de Deus é algo que vai acontecer no futuro, uma realidade unicamente espiritual, pós-histórica que vai começar depois da morte. Para outros o Reino de Deus confunde-se com a Igreja. A Igreja é o Reino de Deus. Nesta concepção fundamenta-se a afirmação: “fora da Igreja não há salvação”.

Para os defensores destas duas interpretações, os cristãos não têm nada a ver com os problemas sociais: a defesa dos direitos dos povos, a luta pela justiça e a preocupação com a vida dos seres vivos, criaturas de Deus. O que interessa é ser “católico praticante” e salvar a própria alma.

Para um outro grupo de cristãos o Reino de Deus confunde-se com suas repercussões temporais: luta por moradia, por terra, por emprego, por segurança, por saúde e tudo que diz respeito ao bem estar das pessoas aqui na terra. Quando Jesus fala em perdão das dívidas (Mt 6,12), eles não pensam em ofensas morais, mas em dívidas pecuniárias, contraídas por causa do salário insuficiente e das obrigações de manter uma família. Para atingir este objetivo, é preciso usar os meios e os métodos mais eficazes, inclusive a violência, se for necessária. Neste caso, os cristãos têm tudo a ver com engajamento político. Religião e política não só se misturam, mas até se confundem. Percebe-se logo que esta percepção de Reino tem sua cota de verdade, mas, com certeza, é uma visão incompleta e, em alguns aspectos, oposta aos ensinamentos cristãos.

Na tradição bíblica e particularmente na pregação de Jesus, Reino. é a concretização do Plano de Deus que consiste num mundo onde o lobo e cordeiro comerão juntos (Is 11,6; 65,25), as guerras serão abolidas, das espadas se farão foices (Is 2,4), não haverá intranqüilidade social, homens e mulheres habitarão as casas construídas por suas mãos e comerão do fruto do seu trabalho (Is 65,22), conhecerão a Deus e terão a sua lei no coração (Jr 31,33-34). Reino, nesta percepção, é iniciativa de Deus, mas conta com a participação humana. Deve começar aqui, nesta vida, mas só terá sua plenitude após a morte. Diante do Reino, não se concebe passividade ou indecisão. É preciso tomar partido e agir. Quem não está a favor de Jesus está contra (Mt 12,30).

Nesta visão, Reino, religião e política se distinguem, mas não se opõem nem se separam. A política é uma forma, não só possível, mas necessária, de praticar a religião e concretizar o Reino. Neste sentido, diante da situação sócio-política por que passa o nosso país, percebe-se a oportunidade e a necessidade do tema da Campanha da fraternidade deste ano.

Vamos, portanto, dialogar e colaborar com a Sociedade, assumindo projetos bem concretos, tendo sempre em vista a concretização do Reino de Deus.

Por Dom Manoel João Francisco

Bispo da Diocese de Cornélio Procópio