ESPERANÇA

Na primeira leitura, tirada do livro de Daniel, a primeira impressão é que o autor está falando do fim do mundo. No entanto, ele está fazendo uma conclamação à esperança e pedindo que o povo resista à opressão e à perseguição que estava sofrendo sob o regime do rei da Síria. O mundo que devia se acabar era o da injustiça, da opressão, da prepotência e da morte. Fortalecidos pela esperança, o povo haveria de fazer nascer outro mundo, onde “ninguém mais sofreria, ninguém mais choraria, ninguém mais ficaria triste”. O novo mundo seria de justiça, de felicidade, de paz e de vida verdadeira.

A mensagem de esperança que encontramos no livro de Daniel é destinada a animar um povo que sofria perseguição numa época e num contexto bem preciso: a dominação dos reis da Síria. Mas, não podemos negar que ela tem validade também para os dias de hoje em que vivemos situações de radicalizações ideológicas e intolerâncias religiosas.

Conforme a Sociedade Internacional para os Direitos Humanos, uma ONG da Alemanha 80% dos atos de perseguição religiosa que acontecem no mundo são contra os cristãos. O jornal inglês The Guardian publicou que, no ano passado, 2014, “cerca de 200 milhões de cristãos em 600 países em redor do mundo enfrentaram algum tipo de restrição ou discriminação, ou pura e simples perseguição”. Os tipos de perseguição variam. Vai do assassinato e estupro, passa pela tortura e chega até a discriminação social. Acredita-se que na Coréia do Norte existem cerca de 70 mil cristãos detidos em campo de concentração. A ONG Portas Abertas estima que em 2014, o ano passado, 4.344 cristãos foram mortos por causa da fé e 1.062 igrejas foram atacadas.

Graças a Deus em nossos dias, temos pessoas iguais a Daniel que não se calam diante da opressão, da injustiça e da perseguição. Corajosamente levantam sua voz para defender, animar e suscitar a esperança em todas as vítimas destas práticas contrárias à vontade de Deus. O Papa Francisco, com certeza, é um desses profetas.

Neste sentido o Papa lembra que não existe cristianismo sem perseguição e, numa mensagem aos cristãos do Iraque, diz que está rezando para que o Espírito Santo dê a eles fortaleza e resistência, ao mesmo tempo que pede maior colaboração internacional na resolução dos conflitos que geram tanto sofrimento e perseguição.

Não pensemos que este tipo de intolerância e perseguição acontece apenas em outros países. Aqui no Brasil também somos vítimas desta prática totalmente oposta aos direitos humanos e aos princípios do Evangelho, com o agravante de serem cristãos que perseguem e matam seus irmãos cristãos. Somente no primeiro semestre deste ano aconteceram 23 mortes por conflitos de terra, além de inúmeras tentativas de assassinato e ameaças de morte. Três Bispos brasileiros estão marcados para morrer porque denunciaram e continuam denunciando a exploração sexual de menores em suas Dioceses.

No Segundo Encontro dos Movimentos Populares, acontecido em Santa Cruz de La Sierra, durante sua viagem à Bolívia, em seu discurso, o Papa começou fazendo algumas perguntas:

- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas em sua dignidade?

- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros?

- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?

Em seguida, afirma que “a globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir a globalização da exclusão e da indiferença”. Mais adianta agradece a todos que trabalham no insignificante, na luta pela dignificação da economia popular, na integração humana das favelas, na auto-construção das moradias, no desenvolvimento das infra-estrutura dos bairros e em tantas outras pequenas ações, mas que são fundamentais para uma mudança global. Segundo o Papa, é “a partir destas sementes de esperança, semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, que crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança que haverão de oxigenar este mundo”.

O Papa termina seu discurso aos participantes do 2º Encontro dos Movimentos Populares pedindo a Deus para que os acompanhe, abençoe, cumule de seu amor, defenda no caminho, e conceda em abundância aquela força que os mantém de pé: a esperança que não decepciona.

Ao acolher as palavras do Papa, nosso pedido a Deus é para que o conserve sempre muito corajoso e inspirador da verdadeira esperança a todos nós.