Em C. Procópio, caso “Creuzinha” pode virar filme, afirma jornal de Londrina

O dia 26 de junho de 1963 ficará para sempre na memória dos procopenses. A morte trágica de uma criança, estrangulada e estuprada, comoveu toda a cidade. Milhares de pessoas foram para frente da delegacia “fazer justiça com as próprias mãos”, e vingar a menina Creuzinha. O resultado foi uma chacina que colocou em lados opostos civis e policiais, causando diversas mortes.

“Quando uma comunidade passa por um evento traumático, é comum que se gere um silêncio em torno do fato. Foi assim com o Holocausto alemão, e é assim com o caso Creuzinha, em Cornélio Procópio”, explica a professora doutora da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR) em Cornélio Procópio, Marilu Martens de Oliveira.

Mas este silêncio está prestes a ser quebrado. Um grupo de estudos da UTFPR (Editec), por meio do projeto “Evocações do passado: memórias de procopenses”, vêm resgatando as histórias dos moradores da cidade. Dezenas de pessoas foram entrevistadas, contando como era a cultura e o cotidiano de Cornélio Procópio em seus primórdios.

Com base nesses relatos, matérias jornalísticas da época e outros documentos, os pesquisadores estão agora estruturando um trabalho em vídeo para contar o “Caso Creuzinha”. “Ainda estamos definindo se será um documentário ou um curta-metragem. Tem pessoas que não querem falar até hoje por medo. Além disso, há as divergências de histórias, mas já conseguimos reunir um bom material e dão uma boa noção do que aconteceu naquele dia”, conta Marilu.

Conforme a professora, Creuzinha era uma criança de cinco anos, que morava com a família no antigo bairro Macuco. “A versão mais aceita é de que a mãe foi para a cidade procurar emprego e a deixou, junto com o irmão, um pouco mais velho, na rodoviária, esperando”. Um andarilho, chamado Sebastião, teria se aproximado das crianças e oferecido doce para ajudá-lo a pedir esmolas. “A menina foi e ele então a teria estuprado de forma brutal e a estrangulado com um cordão”.

Assim que o corpo da garota foi encontrado, o assassino logo foi preso. Um jornalista da rádio Cruzeiro do Sul, Hélio Pestana Cláudino, o entrevistou na cadeia. “O ‘tarado’, como o chamavam na época, narrou toda a brutalidade com muita frieza. O relato no rádio, causou grande comoção em toda a cidade”, diz Marilu.

Revoltadas, milhares de pessoas, de diversas fazendas da região, foram até a delegacia (antigo cadeião) para matar o assassino da criança. Para conter o tumulto, o capitão Djalma Melo, responsável pelo local na época, disfarçou o estuprador de vigia noturno e o retirou da cidade.

O tumulto teria continuado e até hoje não se sabe como um tiroteio começou. “Naquela época era muito comum às pessoas andarem armadas”, lembra a professora, citando que o saldo foi de “muitos mortos e feridos”. Mas o número de vítimas ainda é um mistério. Documentos e jornais apontam de três a cinco mortes, mas há relato de moradores que indicam mais de 30 pessoas. O caso gerou repercussão nacional, ganhando destaque na imprensa da época, como a Folha de Londrina, Folha de São Paulo e foi manchete do Zero Hora (Rio Grande do Sul).

O dia também marca a morte do deputado estadual Nilson Ribas, que presenciou os fatos. “Nervoso com a situação, contam seus familiares, ele teria pedido reforço na segurança para Curitiba e morreu de enfarte enquanto dizia: ‘estão matando meu povo’”, diz Marilu.

O jornalista foi apontado como culpado por instigar a população a fazer a justiça com as próprias mãos. “Mas ele negou os fatos”, diz Marilu. O velório da menina também teria gerado muita comoção. “O caixão passou em procissão pela avenida, na vertical, como se fosse uma santa. Isso foi muito forte, aumentando a revoltada da população”.

Em 1972 os policiais e o jornalista foram julgados. “Os policiais foram condenados pela morte de cinco pessoas. Já o repórter foi inocentado. O estuprador cumpriu pena em Curitiba, e foi solto anos depois”.

Hoje o túmulo de Creuzinha é um dos mais visitados do Cemitério Municipal de Cornélio Procópio. A menina tornou-se uma santa popular da cidade, com várias placas de agradecimento em sua sepultura. “Como ela era criança, muitos alunos pediam para passar de ano. Hoje ela é lembrada como santinha que ajuda nessas situações. Às vezes encontramos cadernos, sapatinhos e outras recordações no túmulo”, conta Bondarik.

O filme está em fase de coleta de documentos e fontes. Um dos membros do grupo Editec, o professor Alexandre Feitosa, é cineasta, e já está trabalhando no roteiro, mas ainda não há previsão de lançamento da obra. (Redação e foto: Rubia Pimenta - Especial para a FOLHA DE LONDRINA)