“Beatificações”

No sábado, 23 de maio, véspera de Pentecostes foram beatificados Dom Oscar Arnulfo Romero em El Salvador, na América Central e a Irmã Irene Stefani, no Quênia, África.

Irmã Irene, menos conhecida por nós, foi uma missionária italiana que se dedicou ao povo do Quênia como enfermeira e morreu contaminada por um de seus pacientes.

Dom Romero, já bem mais próximo do povo brasileiro, foi morto, na capela da Divina Providência do Hospital do Câncer, em El Salvador, quando terminou a homilia da missa que celebrava no primeiro aniversário de morte da mãe de um amigo jornalista, ardente defensor da justiça e dos direitos humanos. Um franco atirador, contratado pelas Forças de Segurança Nacional de seu país, o alvejou com uma única bala. Na homilia havia dito: “Acabam de escutar no evangelho de Cristo que é necessário não amar tanto a si mesmo, cuidar para não correr riscos de morte que a história nos exige e que, quem quiser fugir do perigo, perderá sua vida. Em contrapartida, quem se entrega por amor a Cristo a serviço dos demais, este viverá como o grão de trigo que morre, mas só aparentemente. Se não morresse, ficaria só. Se acontece a colheita, é porque morre, deixa-se imolar nessa terra, desfaz-se, e somente desfazendo-se é que produz colheita”.

A morte de Dom Romero foi consequência da opção que fez: ser pastor com o cheiro das ovelhas e defensor de seu povo. Sua arma foi a Palavra. Em suas homilias condenou a idolatria da riqueza, que no dizer de seu amigo e confidente, o teólogo Jon Sobrino, é como um fio de alta tensão: queima e geralmente mata quem o toca.

No domingo, dia 23 de março, um dia antes de ser morto, pregou aos soldados a desobediência civil e exigiu que deixassem de matar os próprios irmãos.

“Gostaria de fazer uma chamada, de maneira especial, aos homens do Exército, concretamente às bases da Guarda Nacional, da Polícia e dos Quartéis.(...)

Nenhum soldado está obrigado a obedecer a uma ordem contra a lei de Deus. Uma lei imoral, ninguém tem de cumpri-la. Já é tempo de recuperarem sua consciência e obedecerem antes à sua consciência do que à ordem do pecado.(...). Queremos que o Governo leve a sério que de nada servem as reformas se estão manchadas com tanto sangue. Em nome de Deus, pois, e em nome deste povo sofrido, cujos lamentos sobem até o céu, cada dia mais tumultuosos, suplico-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes: PAREM A REPRESSÃO!”.

Dura e corajosa foi também carta que, no dia 17 de fevereiro de 1980, enviou a Jimi Carter, defensor dos direitos humanos e presidente dos Estados Unidos.

                “...Se o Senhor realmente deseja defender os direitos humanos, peço-lhe que:

                - Proíba que seja dada ajuda militar ao governo salvadorenho;

                - garanta que seu governo não intervirá nem direta nem indiretamente, com pressões militares, econômicas, diplomáticas ou de outros tipos, na determinação do destino do povo salvadorenho. (...).

                Espero que seus sentimentos religiosos e seu empenho na defesa dos direitos humanos consigam levá-lo a aceitar o meu pedido, evitando, assim, maior derramamento de sangue neste país sofredor”.

Desde sua morte, o sensus fidei de boa parte dos católicos latino-americanos canonizou Dom Romero com o título de “São Romero da América”. Trinta e cinco anos depois a Igreja oficializa o que o “instinto sobrenatural” dos fiéis já havia feito.

 

De todo o coração, demos graças a Deus.

São Romero da América rogai por nós!

 

 

Dom Manoel João Francisco

Bispo da Diocese de Cornélio Procópio-PR