Arquitetura vira arma contra criminalidade

IMAGEM ILUSTRATIVAArquitetura vira arma contra criminalidade

 

O contraste com países desenvolvidos mostra que a área da segurança pública é uma das principais fragilidades do Brasil. Em vez de casas com enormes quintais sem nenhuma barreira como é comum encontrar na Suíça, Itália, regiões periféricas das cidades dos EUA e também em regiões do vizinho Uruguai, aqui é cada vez mais frequente assemelhar habitações a fortalezas superprotegidas. A arquitetura, notória por criar ambientes focados no bem-estar e na aproximação dos moradores com o meio ambiente, passa a incorporar uma missão muito mais espinhosa: oferecer aos clientes moradias, além de bonitas e bem-construídas, à prova de bandidos.

Os elevados índices da criminalidade atingem grande parte das cidades pelo País afora e são cada vez mais graves em municípios da região Oeste. Cascavel, segundo o comandante do 6º Batalhão da Polícia Militar, major Sérgio Teixeira, registrou 74 homicídios nos primeiros sete meses de 2011 contra 99 do mesmo período deste ano. O número de roubos saltou de 553 para 614 e o de presos em flagrante subiu de 101 para 113. “Somente um conjunto de fatores, principalmente o trabalho integrado das polícias, entidades e comunidade, poderá fazer frente às estatísticas”, diz o delegado da 15ª SDP, Paulo Machado.

As forças policiais, apesar das limitações, procuram fazer a sua parte. Tudo o que puder dificultar a vida dos bandidos é bem-vindo e nesse contexto a arquitetura assume papel importante, segundo o coronel Celso Borges, do 5º Comando Regional do Interior. A busca de elementos alternativos na tentativa de enfrentar a violência sempre esteve na pauta do coronel Roberson Luiz Bondaruk, muito antes de ele assumir, no ano passado, o comando geral da Polícia Militar do Paraná. Ele lançou livros sobre o tema.

 

Livro

Roberson Bondaruk dedicou dois anos de pesquisa para chegar à publicação de Prevenção do crime através do desenho urbano, lançado em 2007 com apoio da Universidade Federal do Paraná e Crea-PR. O coronel fez entrevistas com 287 criminosos para extrair aspectos determinantes na escolha de um alvo, principalmente em furtos e roubos a residências. No livro, Bondaruk mostra como o desenho urbano pode facilitar ou dificultar a ação de bandidos.

Para garantir a segurança das pessoas de bem e de seus familiares, o coronel Bondaruk recomenda a utilização dos mais diversos dispositivos. Uma matéria que pode parecer nova à grande maioria dos brasileiros e oestinos já é tratada como tema obrigatório pela inteligência das polícias em algumas regiões do mundo há pelo menos seis décadas.

 

Uma solicitação comum e que pode encarecer obra em até 5%

Embora ainda não muito familiarizados às teorias do coronel Roberson Bondaruk, engenheiros e arquitetos de Cascavel e região percebem que aspectos ligados à segurança assumem a liderança na preocupação de futuros proprietários de imóveis. “A prioridade é edificar uma casa que, além de confortável, seja segura”, informa a arquiteta Marli Aoki, ex-presidente da Aeac, a Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Cascavel.

Os elementos atualmente incorporados à edificação, na tentativa de minimizar riscos, vão além dos antigos conceitos do muro alto tomado no topo por cacos de vidro ou pequenos e cortantes filamentos de metal. A regra básica é dificultar ao máximo o acesso de pessoas estranhas sem prejudicar a estética do imóvel. “Os clientes pedem cerca elétrica, câmeras de vigilância, gradil, portões fechados e outros cuidados na estrutura que eliminem apoios que permitam acesso ao quintal e ao telhado”, informa Marli.

O pacote completo para deixar uma casa ou sobrado mais seguro não é barato, pode chegar a 5% do valor final da construção. Se uma residência consumiu R$ 500 mil para ficar pronta, serão necessários então R$ 25 mil para dotá-la dos itens de segurança mais sofisticados atualmente disponíveis no mercado. Marli Aoki entende que esses fatores, associados aos conceitos da acessibilidade e da sustentabilidade, compensam diante dos riscos e prejuízos que uma eventualidade pode trazer.

 

Parcela opta por morar em edifícios ou condomínios

O arquiteto Anestor Tombini é outro dos que percebem a preocupação dos clientes com a segurança na hora de construir ou comprar um imóvel. “Esse tema é bastante amplo e complexo, mas algumas situações passam a se configurar com mais força de alguns anos para cá”, ressalta Anestor.

Um desses aspectos é o da opção de parcela das famílias de morar em apartamentos ou em condomínios fechados. A primeira opção está ao alcance de uma gama maior de pessoas, já os conjuntos de casas ou sobrados cercados, monitorados e até com vigilância particular, atendem ao bolso de apenas uma pequena parcela da população.

Anestor Tombini entende que todos os recursos disponíveis devem ser empregados na tentativa de coibir qualquer prática violenta. No entanto, observa o arquiteto, o melhor de tudo seria morar em um país onde as pessoas fossem suficientemente educadas para entender e respeitar o espaço e os bens um do outro.

 

Estratégias básicas

A literatura indica três estratégias básicas de abordagem entre arquitetura e crime: controle de acesso, vigilância natural e reforço territorial:

Controle de acesso - Reduzir a oportunidade de ocorrências criando a sensação de risco para o elemento que pretende cometer um delito, seja pela presença de guardas, porteiros ou vigilantes, pela existência de trancas

Vigilância natural - Limitar a ação do delinquente ao causar nele a sensação de que está sob vigilância. Do ponto de vista das vítimas em potencial, a vigilância mútua é tranquilizadora, já que as pessoas costumam se sentir mais seguras sabendo que outras as observam, mesmo que não sejam policiais

Reforço territorial - Significa a vigilância de cada um em áreas próximas ao seu domicílio, cuidando e coibindo atitudes anti-sociais ao seu alcance.

 

O alvo preferencial dos ladrões

Em seu livro, o coronel Roberson Bondaruk identifica os sobrados como alvos preferenciais dos bandidos. Um dos maiores problemas é a sacada, geralmente encostada a um muro ou geminada. As pessoas colocam grades em portas e janelas e deixam a parte superior desguarnecida, segundo Bondaruk. Já em apartamentos, uma das dicas é ficar atento à tentativa de pessoas mal-intencionadas de tapar o olho-mágico. É sempre importante reforçar portas e janelas com trancas. 

 

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Redação Anuncifácil

Fonte: O Paraná (Cascavel)