“Ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela encerra”
A Palavra de Deus, contida na Bíblia, nos assegura que “ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela encerra” (Sl 24,1). A Palavra de Deus afirma também que a terra é dom de Deus para seu povo (Jr 2,7). Um dom, no entanto, não absoluto. Por isso, segundo a Bíblia, as terras não podem ser vendidas a titulo definitivo (Lv 25,23), e o seu uso deve ser feito sob condições, ou seja, sob normas que impeçam todo e qualquer tipo de exploração. Na Bíblia, o crime do roubo de terra, ou seja, da grilagem, assume maldade especial, pois condena os descendentes de uma família à miséria e à escravidão.
Nos tempos bíblicos, o acúmulo de terra é condenado com muita severidade.
Maldito quem remover os marcos do vizinho! (Dt 27,17).
O Senhor destrói a casa dos soberbos, mas fixa os marcos do terreno da viúva (Pr 15,25).
Não toques nos marcos do terreno da viúva e não invadas o campo dos órfãos: pois seu Vingador é forte e defenderá a causa deles contra ti (Pr 23,10-11)
Ai dos que vivem maquinando a maldade, planejando seus golpes, deitados na cama. É só o dia amanhecer, vão executar, porque está ao seu alcance. Se desejam um terreno, roubam-no, querem uma casa, ficam com ela. Tomam posse da casa e do dono, do terreno e do proprietário. Por isso mesmo, assim diz o Senhor: “Estou maquinando contra essa gente uma desgraça; dela não podereis afastar o pescoço, nem podereis andar de cabeça erguida”(Mq 2,1-3).
Apesar da clareza destas leis, entre o povo de Israel e também mais tarde, entre os cristãos sempre houve quem possuísse terras, cujos donos não sabiam precisar os limites e quem não tinha nem onde cair morto.
No Brasil o conflito por terra existe desde o tempo da colonização: concentração nas mãos das ricas oligarquias e resistência dos pobres contra sua desapropriação e destruição. Ultimamente este conflito tem crescido sempre mais.
No dia 27 de março de 2018, Pe. José Amaro Lopes de Souza, pároco da paróquia de Santa Luzia, na cidade de Anapu, e defensor dos direitos humanos, da regularização fundiária, da reforma agrária e dos assentamentos dos sem terra, foi preso, sob alegação de extorsão, assédio sexual e ocupação violenta de terras. O padre é o líder social mais influente contra desmatadores e fazendeiros da região. Ele sempre se colocou ao lado dos sem terra, por isso sua prisão foi montada por aqueles fazendeiros, com a colaboração da Polícia, do Ministério Público e do Judiciário da cidade.
A situação no Estado do Paraná, não é diferente. No dia 07 de dezembro do ano passado, na comunidade de Alecrim, no município de Pinhão, cerca de 20 famílias assistiram, sem nada poder fazer, a destruição de suas casas e benfeitorias, bem como a demolição do posto de saúde, de uma padaria comunitária, da igreja e de espaços de lazer. Foi o cumprimento de uma reintegração de posse determinada pelo Superior Tribunal de Justiça em favor das Indústrias João José Zattar S.A.. Esta empresa é uma das maiores devedoras da União. Entre as famílias despejadas, algumas delas moravam há mais de 20 anos na comunidade. Segundo o Prefeito da cidade, o que aconteceu com os moradores de Alecrim pode acontecer com mais 14 mil pessoas que estão na mesma situação, no município de Pinhão. Todos estão sob grande tensão.
Desde 1978, a Igreja católica promove, através da Comissão Pastoral da Terra (CPT), nos vários estados do Brasil, as Romarias da Terra. Sua finalidade é apoiar as organizações dos camponeses e trabalhadores do campo e suas lutas pela terra e na terra e o respeito pelo uso sustentável que delas fazem.
No domingo, 19 de agosto, em Barbosa Ferraz, Diocese de Campo Mourão, aconteceu a 31ª Romaria da Terra do Paraná. Os romeiros estão sendo motivados pelo lema: “Com Direito, Justiça e Paz, supera-se a Violência no Campo”.
As Romarias da Terra não deixam de serem gestos políticos. Mas sua motivação maior é a fé na promessa feita por Deus: “os pobres possuirão a terra e se alegrarão com uma paz imensa” (Sl 37,11).
Iluminada por esta fé, a Igreja tem a obrigação de apoiar camponeses sem terra, pequenos agricultores e demais trabalhadores do campo nas organizações e lutas por seus direitos. Os cristãos como exortou o Papa Francisco “não podem perder sua fé revolucionária”.
Possa a 31ª Romaria da Terra do Estado do Paraná ser mais uma oportunidade de reafirmarmos nossa fidelidade à missão de denunciar o pecado da idolatria da propriedade, da riqueza e do poder que é causa da violência que sempre acompanha a luta pela terra.
