Antigo “trailer” de lanches é usado como igreja no interior de São Paulo
![]() |
Redação Anuncifácil
Não fossem as letras grandes que identificam a Igreja Internacional da Graça de Deus, no bairro João Rossi, em Ribeirão Preto (SP), qualquer visitante de primeira viagem poderia pensar que, no local, funciona uma lanchonete. Os petiscos, no entanto, são coisa do passado. Há sete anos, o alimento servido ali é outro: “Cristo”.
A dona da voz é a pastora Maria Aparecida dos Santos Conga, de 59 anos, chamada carinhosamente de Cidinha pelos amigos. É ela quem abre as duas janelas e uma pequena porta de um quiosque de alvenaria, conhecido no bairro como "trailer", para receber os fieis para um culto de duas horas, três vezes por semana.
O letreiro contrasta com o tamanho da igreja-trailer, que tem pouco mais de 20 metros quadrados, onde cabem, no máximo, 30 pessoas sentadas, umas bem próximas às outras. As orações começam às 19h30, em ponto, com poucos presentes. Meia hora depois, as cadeiras estão todas ocupadas. A maioria acompanha o trabalho de Cidinha há anos. Valdinei Eliazibi, de 28 anos, é o único que comparece pela primeira vez, informado por vizinhos que o antigo ponto de venda de aperitivos, salgados e lanches, é, na verdade, um lugar de práticas religiosas.
Cidinha exercita a arte da conquista com muita energia. Durante o culto, ela não para. Emenda pedidos, reflexões e passagens da Bíblia com cânticos, tudo sem apoio de roteiros escritos. Pede para ligar o rádio e os fieis acompanham cada música, com as letras na ponta da língua. Depois, a pastora caminha no meio do público, nos poucos espaços que restam entre as cadeiras. A única pausa na pregação é para cumprimentar um a um, que ela chama pelo nome.
A proximidade com a comunidade da igreja é facilitada pelas características do local. A limitação física favorece os contatos e a troca de experiências e histórias de vida. A confiança dos fieis em Cidinha é tanta que, com ela, dividem problemas familiares, financeiros e pessoais. Quando não há culto, as conversas são por telefone. “A primeira pessoa que liguei quando meu neto caiu foi para a pastora”, afirma a xará, Maria Aparecida da Costa, de 57 anos. A história se desenrolou no próprio João Rossi, em 2011, quando o menino caiu do terceiro andar do prédio onde moravam familiares. Após ficar 27 dias no hospital, sendo 20 no Centro de Terapia Intensiva (CTI), teve alta. “Isso renovou a minha fé”, diz Maria Aparecida.
Cidinha transferiu a igreja para lá, em 2007. Antes, os cultos eram na Escola Lygia Latuf Salomão. Como o João Rossi é um bairro tipicamente residencial, não pode ter prédios comerciais. A venda de produtos é feita, exclusivamente, em trailers.
Além da escola, Cidinha organizava cultos na rua, “embaixo dos postes”. Até que viu a lanchonete desativada. Foi a oportunidade para ter um canto para acolher os fieis. “As outras igrejas que usavam a escola conseguiram comprar seus terrenos. Para mim, a solução foi o aluguel”. O valor, ela não revela, mas conta que, no início, passou por dificuldades. “A dona do trailer me pediu três meses adiantados. Para conseguir pagar, comecei a fazer bazares, que existem até hoje. Faço do lado de fora”. A igreja também é mantida com o dízimo, que ela diz não ser obrigatório. “Cada um de vocês dá quanto pode, de acordo com as condições”, informa durante o culto.
Manter um local de orações num trailer tem suas vantagens e desvantagens, segundo ela. Entre os benefícios, a união das pessoas. Em contrapartida, o espaço não oferece condições de receber todos os 100 fieis que ela calcula ter. “Alguns vêm na terça, outros na quinta e outros no domingo. Além disso, o bairro tem muito rodízio de pessoas. Muitos chegam e outros se mudam daqui. Sempre tem gente nova na igreja. Então, a sensação é que estou sempre começando, o que me dá estímulo para entender o que elas estão buscando".
Para preparar as reuniões, ela, que é cabeleireira e tem um salão em casa, cessa o trabalho às 17h. Estuda a Bíblia, define os temas e separa o que precisa ser levado. “Água, por exemplo, tenho que trazer de casa, que aqui não tem”. É nessa hora que aparecem alguns ajudantes, os obreiros. Entre eles, está mais uma xará, que carrega “Jesus até no nome”. Maria Aparecida Carrilho de Jesus ajuda a limpar o trailer e está sempre perto da pastora durante os cultos, ajeitando os pães que são servidos aos fieis e óleo, com o qual são ungidos.
Entre tantos desafios já enfrentados, como o fim do casamento há cerca de 20 anos, quando os dois filhos ainda eram crianças, e um episódio no ano passado, quando um vendaval destelhou o trailer, ela espera vencer mais um. “Existem muitas pessoas carentes no nosso bairro, que precisam de ajuda. Então, se tiver alguém em casa sem fazer nada e que tenha vontade de fazer algo, será muito bem-vindo”.
Para atrair novos adeptos, ela continua apostando no carisma, na divulgação dos fieis e no local inusitado escolhido para abrigar a igreja, que, mesmo pequeno, mantém, pintada na fachada, uma identificação que não passa despercebida. Pelo contrário. Pode ser vista de longe. (Redação e foto: G1 SP)
