“Alegrai-vos! O Senhor está perto”

A Antífona, tirada da Carta de São Paulo aos Filipenses, é um convite insistente: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto”. Mas, a alegria não é simples conquista nossa. É, antes de tudo, dom de Deus. Por isso, a oração da coleta pede com toda a confiança: “Ó Deus de bondade, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las com intenso júbilo na solene liturgia”.

A graça do Senhor não nos tolhe a capacidade de agir. Pelo contrário, a graça nos capacita para a ação. Por isso, nossa alegria é a de quem se sente colaborador de Deus na realização do plano de salvação, a exemplo do profeta que, na primeira leitura, com toda vibração exclama: “Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus”. A mesma alegria de se sentir colaboradora de Deus expressa nossa Senhora em seu hino de louvor, que vai ser cantado como salmo responsorial no próximo domingo. Na mesma perspectiva, pode-se entender a convocação que, na segunda leitura, Apóstolo São Paulo faz aos tessalonicenses: “Irmãos: Estai sempre alegres!”.

Alegria não é o mesmo que euforia. É claro que a alegria, pode e, por vezes, até deve se manifestar com euforia. Mas nem sempre. Na vida do cristão pode acontecer o paradoxo de ter lágrimas nos olhos e alegria no coração. A alegria brota da consciência do dever cumprido, da possibilidade de se dizer: “se fosse para repetir, faria o que fiz tudo de novo”.

Como já disse antes, a alegria é um dom de Deus. Nós podemos encontrá-la nas coisas do dia a dia e nos gestos mais simples da vida. A convivência familiar e o comer, por exemplo, não só podem, mas devem ser motivos de alegria para alguém que está em paz consigo mesmo, com os irmãos e com Deus. Neste sentido, podemos entender o que fala o livro do Eclesiastes: “Vai, pois, come teu pão com alegria e bebe gostosamente o teu vinho, porque já agradaram a Deus há muito, as tuas obras. Que tuas roupas sejam sempre bem cuidadas e nunca falte óleo perfumado sobre a tua cabeça. Goza da vida em companhia da esposa a quem amas, em todos os dias de tua vida passageira” (Ecl 9,7-9).

A pessoa sábia, porém, não fecha os olhos para o caráter efêmero e passageiro das alegrias terrenas. A este propósito vale lembrar a advertência de Jesus na parábola do rico avarento e do pobre Lázaro. A alegria do rico foi muita rápida. Durou apenas enquanto vivia na terra. Enquanto que a alegria de Lázaro, junto de Abraão, nunca mais se acabará (Lc 16,19ss). Completamente enganado estava também o proprietário que acumulara muitos bens. “Meu caro, disse ele para si mesmo, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, goza a vida!”. Não sabia ele, que naquela mesma noite a vida lhe seria tirada (cf. Lc 12,16-21).

Vivamos, portanto, este advento em alegre expectativa. A espera do Senhor deve ser vivida como quem antecipa a alegria. No dizer de Saint Éxupery: “Se tu vens às quatro da tarde, desde as três eu começarei a me alegrar”.

 

Por Dom Manoel João Francisco

Bispo da Diocese de Cornélio Procópio